quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher: Parabéns a todas!





Essa é a francesa Simone de Beauvoir. Foi a filósofa que sacudiu os alicerces da consciência sobre nós mulheres deflagrando o que chamamos de Movimento Feminista através do livro "O Segundo Sexo" (1949) que foi um divisor de águas para situar nós mulheres no tempo e espaço em que vivíamos. Viveu uma relação "aberta" com o símbolo do Existencialismo, Jean-Paul Sartre, tendo outros romances paralelamente, numa época que mulher só podia frequentar cozinha e sala de costura. Uma das frases mais conhecidas dela: 
-Não se nasce mulher: torna-se! Morreu em 1978, mas suas ideias são mais atuais que nunca. 

 Segue um trecho de entrevista que ela concedeu em 1976 a John Gerassi. Vale a pena ler com calma.


Gerassi — A conversa sobre mulheres serem mais livres me intriga. Em nossa sociedade, a liberdade é alcançada com dinheiro e poder. As mulheres têm mais poder hoje, depois de quase uma década do movimento feminista?

Beauvoir — No sentido em que você pergunta, não. As intelectuais, mulheres jovens que estão dispostas a correr o risco de serem marginalizadas, as filhas de ricos, quando estão dispostas e são capazes de romper com os valores de seus pais: essas mulheres sim, são mais livres. Isto é, por causa de seu nível de educação, estilo de vida, ou recursos financeiros, essas mulheres conseguem escapar de uma sociedade competitiva, viver em comunidades ou à margem, e desenvolver relações com outras mulheres similares a elas ou homens sensíveis aos seus problemas, e, dessa forma, se sentirem mais livres. Em outras palavras, como indivíduos, as mulheres que podem se sustentar, seja lá por qual motivo, conseguem se sentir mais livres. Mas como classe, as mulheres certamente não são mais livres, precisamente porque, como você diz, elas não têm poder econômico. Atualmente, há todo o tipo de estatística para provar que o número de mulheres advogadas, médicas, publicitárias, etc., está crescendo. Mas essas estatísticas são enganosas. O número de advogadas e executivas poderosas não aumentou. Quantas advogadas podem pegar um telefone e ligar para um juiz ou oficial do governo para marcar um horário ou pedir favores especiais? Essas mulheres têm que operar através de seus equivalentes homens, já estabelecidos. Médicas? Quantas são cirurgiãs, diretoras de hospital? Mulheres no governo? Sim, poucas. Na França nós temos duas. Uma, séria, trabalhadora, Simone Weil, é ministra da saúde. A outra, Françoise Giroud, que é a ministra responsável pelas questões femininas é basicamente uma peça de mostruário, destinada a aplacar as necessidades das mulheres burguesas de integração no sistema. Mas quantas mulheres controlam verbas no Senado? Quantas mulheres controlam a política editorial de jornais? Quantas são juízas? Quantas são presidentes de banco, capazes de financiar empresas? Só porque há muito mais mulheres em posições de nível médio, como os jornalistas dizem, isso não quer dizer que elas têm poder. E até mesmo essas mulheres têm que jogar o jogo dos homens para serem bem-sucedidas. Agora, isso não quer dizer que eu não acredito que as mulheres tenham feito progresso na luta. Mas o progresso é resultado da ação de massa. Pense na nova lei de aborto proposta por Simone Weil, por exemplo. Os abortos não serão cobertos pelo programa de saúde nacional e, portanto, serão mais acessíveis para as ricas do que para as pobres, mas ainda assim, a lei certamente é um grande passo. No entanto, apesar de toda a seriedade com que Simone Weil lutou por essa lei, a razão pela qual ela pôde ser apresentada é porque milhares de mulheres se mobilizaram em toda a França por essa lei, porque milhares de mulheres assumiram publicamente que fizeram abortos (forçando o governo a processá-las ou a mudar a lei), porque milhares de médicos e de parteiras correram o risco de serem processados ao admitir que tinham realizado abortos, porque alguns foram processados e lutaram no tribunal pela causa, etc. O que estou dizendo é que, em ações de massa, as mulheres têm poder. Quanto mais as mulheres tomarem consciência da necessidade dessas ações de massa, mais progresso elas alcançarão. E, voltando ao caso das mulheres que podem financiar a busca da liberação individual, quanto mais ela puder influenciar suas amigas e irmãs, mais essa conscientização se espalhará, o que, por outro lado, quando frustrada pelo sistema, estimulará a ação de massa. É claro, quanto mais essa conscientização se espalhar, mais agressivos e violentos os homens se tornarão. Mas então, quanto mais agressivos forem os homens, mais as mulheres precisarão de outras mulheres para revidar, isto é, maior será a necessidade de ações de massa. Hoje em dia, a maioria dos operários do mundo capitalista está ciente da luta de classes, quer eles se denominem Marxistas ou não, de fato, quer eles sequer já tenham ouvido falar de Marx ou não. E assim deve acontecer na luta de sexos. E acontecerá.

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