Essa é a francesa Simone de Beauvoir. Foi a filósofa que sacudiu os alicerces da consciência sobre nós mulheres deflagrando o que chamamos de Movimento Feminista através do livro "O Segundo Sexo" (1949) que foi um divisor de águas para situar nós mulheres no tempo e espaço em que vivíamos. Viveu uma relação "aberta" com o símbolo do Existencialismo, Jean-Paul Sartre, tendo outros romances paralelamente, numa época que mulher só podia frequentar cozinha e sala de costura. Uma das frases mais conhecidas dela:
-Não se nasce mulher: torna-se! Morreu em 1978, mas suas ideias são mais atuais que nunca.
Segue um trecho de entrevista que ela concedeu em 1976 a John Gerassi. Vale a pena ler com calma.
Gerassi — A conversa sobre mulheres serem mais livres me
intriga. Em nossa sociedade, a liberdade é alcançada com dinheiro e poder. As
mulheres têm mais poder hoje, depois de quase uma década do movimento
feminista?
Beauvoir — No sentido em que você pergunta, não. As
intelectuais, mulheres jovens que estão dispostas a correr o risco de serem
marginalizadas, as filhas de ricos, quando estão dispostas e são capazes de
romper com os valores de seus pais: essas mulheres sim, são mais livres. Isto
é, por causa de seu nível de educação, estilo de vida, ou recursos financeiros,
essas mulheres conseguem escapar de uma sociedade competitiva, viver em
comunidades ou à margem, e desenvolver relações com outras mulheres similares a
elas ou homens sensíveis aos seus problemas, e, dessa forma, se sentirem mais
livres. Em outras palavras, como indivíduos, as mulheres que podem se
sustentar, seja lá por qual motivo, conseguem se sentir mais livres. Mas como
classe, as mulheres certamente não são mais livres, precisamente porque, como
você diz, elas não têm poder econômico. Atualmente, há todo o tipo de
estatística para provar que o número de mulheres advogadas, médicas,
publicitárias, etc., está crescendo. Mas essas estatísticas são enganosas. O
número de advogadas e executivas poderosas não aumentou. Quantas advogadas
podem pegar um telefone e ligar para um juiz ou oficial do governo para marcar
um horário ou pedir favores especiais? Essas mulheres têm que operar através de
seus equivalentes homens, já estabelecidos. Médicas? Quantas são cirurgiãs,
diretoras de hospital? Mulheres no governo? Sim, poucas. Na França nós temos
duas. Uma, séria, trabalhadora, Simone Weil, é ministra da saúde. A outra,
Françoise Giroud, que é a ministra responsável pelas questões femininas é
basicamente uma peça de mostruário, destinada a aplacar as necessidades das
mulheres burguesas de integração no sistema. Mas quantas mulheres controlam
verbas no Senado? Quantas mulheres controlam a política editorial de jornais?
Quantas são juízas? Quantas são presidentes de banco, capazes de financiar
empresas? Só porque há muito mais mulheres em posições de nível médio, como os
jornalistas dizem, isso não quer dizer que elas têm poder. E até mesmo essas
mulheres têm que jogar o jogo dos homens para serem bem-sucedidas. Agora, isso
não quer dizer que eu não acredito que as mulheres tenham feito progresso na
luta. Mas o progresso é resultado da ação de massa. Pense na nova lei de aborto
proposta por Simone Weil, por exemplo. Os abortos não serão cobertos pelo
programa de saúde nacional e, portanto, serão mais acessíveis para as ricas do
que para as pobres, mas ainda assim, a lei certamente é um grande passo. No
entanto, apesar de toda a seriedade com que Simone Weil lutou por essa lei, a
razão pela qual ela pôde ser apresentada é porque milhares de mulheres se mobilizaram
em toda a França por essa lei, porque milhares de mulheres assumiram
publicamente que fizeram abortos (forçando o governo a processá-las ou a mudar
a lei), porque milhares de médicos e de parteiras correram o risco de serem
processados ao admitir que tinham realizado abortos, porque alguns foram
processados e lutaram no tribunal pela causa, etc. O que estou dizendo é que,
em ações de massa, as mulheres têm poder. Quanto mais as mulheres tomarem
consciência da necessidade dessas ações de massa, mais progresso elas
alcançarão. E, voltando ao caso das mulheres que podem financiar a busca da
liberação individual, quanto mais ela puder influenciar suas amigas e irmãs,
mais essa conscientização se espalhará, o que, por outro lado, quando frustrada
pelo sistema, estimulará a ação de massa. É claro, quanto mais essa
conscientização se espalhar, mais agressivos e violentos os homens se tornarão.
Mas então, quanto mais agressivos forem os homens, mais as mulheres precisarão
de outras mulheres para revidar, isto é, maior será a necessidade de ações de
massa. Hoje em dia, a maioria dos operários do mundo capitalista está ciente da
luta de classes, quer eles se denominem Marxistas ou não, de fato, quer eles
sequer já tenham ouvido falar de Marx ou não. E assim deve acontecer na luta de
sexos. E acontecerá.

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