A pesca e o
voto
A nomeação
do senador Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca e Aqüicultura, no lugar
do deputado federal Luís Sérgio, já surtiu o primeiro efeito, pelo menos para
esse que vos escreve. Mandei, pela primeira vez, um e-mail para a presidente
Dilma Roussef. Não foi um simples protesto contra o uso dos cargos públicos
como moeda eleitoral, já que o ex-prefeito de Angra dos Reis não era exatamente
um expert na pasta que ocupava (Luís Sérgio é metalúrgico de origem). O problema mais grave nisso tudo é a rendição
do poder público ao mau uso da religião.
O senador
Crivella, membro da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), virou líder
político através do poder religioso. Ele e seu tio, o bispo Edir Macedo,
controlam milhões de fiéis, que além de lhes dar dinheiro, ainda dão votos. De
cabresto mesmo.
No
Congresso Nacional, Crivella e a tal bancada evangélica tramam contra o estado
laico e tentam transformar suas crenças em leis para toda a sociedade. Me
coloco na trincheira oposta a essa gente. Eu não acredito no que eles acreditam
e não quero ser obrigado a acreditar por força de lei. Isso é coisa de ditadura
e o exemplo do Irã, onde muçulmanos radicais controlam o governo, mostra o
perigo disso.
Por isso, o
meu e-mail para a presidente. Como uma pessoa que lutou pelas liberdades, sendo
torturada por isso, ao chegar à presidência da República, cede a esse tipo de
política? E vamos lembrar que ela chegou a ser vítima desse grupo, que a acusou
de ser favorável ao aborto, apenas com o intuito de impedir sua eleição. Não
estou dizendo que o Crivella fez isso, até porque se fizesse, seria muito
burro, já que o partido dele é aliado do governo, mas em muitas Iurds e outras
igrejas evangélicas, esse discurso foi repetido.
Os exemplos
de políticos que se aproveitam de uma religião para se manter no poder são
muitos e se espalham por quase todas as cidades do Brasil. Que eles usem e
abusem dos fiéis para se elegerem, já é um pecado (para usar a linguagem bem
conhecida por eles), mas querer empurrar por nossa goela abaixo as coisas que
eles acreditam, já é um crime muito maior. Atentado contra as liberdades.
Pouco sei
da atuação de Marcelo Crivella como senador, na verdade, a impressão que se tem
aqui no andar de baixo é que nada se faz naquela casa e que se ela fosse
extinta, nenhuma diferença faria para o país. Aliás, faria sim, economizaríamos
uma boa grana.
Agora, ele
tem a pasta da pesca nas mãos. Como será a sua gestão? Ser membro da Iurd será,
assim como foi ser negro no governo da Benedita da Silva no Rio de Janeiro,
condição obrigatória para fazer parte da equipe? Mas temos de dar graças a Deus
(é, eu acredito nele, mas não da mesma forma que essa turma) de ser, por
enquanto, só um ministério. Uma hora, eles conseguem ir mais longe e aí, salve-se
quem puder!

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